Thursday, April 12, 2007

Tinhas razão, quando dizias que a arte é o princípio de tudo.
O princípio de tudo o que é feito na crença da perfeição - mesmo que a perfeição não exista, que não passe de uma miragem inalcançável que nos permita dar o que, de outro modo, nunca teríamos acreditado ser possível dar.

Tinhas razão quando citavas Eça, e dizias que “a arte é tudo, tudo o resto é nada”.
Nem que seja porque em tudo em que ela não existe, não existe o fermento da mudança, o deslumbramento de uma esperança sempre nova.

Deixa-me encher de luz este silêncio de um dia em que se deu tudo.
Deixa-me acreditar que amanhã haverá de novo tudo para dar…
Que as horas não deixem traços nem mágoas nem desilusão - nem essa marca última da indiferença, da distância segura que nos protege da vida e, estranhamente, nos torna tão alheios a nós próprios.

Posted by Ana in 22:44:33 | Permalink | No Comments »

Wednesday, February 28, 2007

[Da gaveta]


“A tua beleza é o travo amargo e doce do teu sorriso, os cambiantes de luz e sombra no teu olhar. A tua beleza é o lugar limbo da ternura e do desejo, esse noante onde qualquer distância é insuportável, onde mora sempre a angústia premente de um gesto impossível. A tua beleza é o sol a desenhar ondas de luz no teu cabelo, na sua cor indefinida que eu sei de cor; é a surpresa emergente da tua boca, a tua ausência tantas vezes repetida, maior e mais angustiante quando partes sem levar o teu corpo contigo.


A tua beleza é esse condão mágico de revolveres a vida das pessoas, de subverteres as suas vidas, de lhe dares o seu veneno . A tua beleza é a tua figura recortada contra o vento a um passo das águas plúmbeas do douro, enquanto todos olham para todos e tu olhas para o horizonte, voando muito acima dos outros, como um anjo descalço e feliz,  esquecido cá em baixo pelos deuses.
A tua beleza é o suspiro breve desse anjo, a melancolia roubada a um acorde em fá, o grito mudo e lento de algo novo e intocável a nascer, como um vento de leste a abanar as searas com doçura.

A tua beleza é a revelação súbita do relâmpago, o baque surdo do trovão que o anuncia e se desfaz, num instante fugaz, em mel e luz; é o improviso de um acorde após outro, os dedos a dedilharem as cordas devagar, como quem não tem pressa, não tem nada para fazer nem para cumprir no instante que passa ou que passou e, como tal, tem todo o tempo que for preciso para ouvir a música e dar-lhe o timbre do seu próprio coração. A tua beleza é o sol que se desvanece devagar no teu sorriso, a sombra que turva devagar o teu olhar como as árvores a agitarem-se em sombras chinesas nas tardes de Outono.

Olho-te em silêncio - há tanto que te quero dizer e tão fraca é a minha voz; amordaçada sub-repticiamente pelo medo e pelo cansaço, cansada pelos dias que passam e sem nada mudar adormecem - adormecida pelos dias que passam e sem nada mudar cansam -, incrustando as verdades em corais mais eternos e águas mais profundas.

Olho-te em silêncio, sem te olhar; sinto o teu olhar poisar devagarinho sobre mim, como uma ave nocturna e fugidia, no intervalo preciso do tempo em que te vejo sem te olhar. A faísca do nosso olhar cruzado noutro lugar que não este tempo, como uma história roubada, sem ninguém notar, a um sítio que não existe. Como uma memória, que só existirá enquanto tu te lembrares e eu não me esquecer, um murmúrio suave do tempo, que sabe a mel e a vento e ao ar salgado da Foz nas noites frias de Dezembro.”

 

                                                                                                                                                                    [20 Ago 2004]

Posted by Ana in 23:07:53 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, February 27, 2007

Faith is a funny thing

“At the end of the day faith is a funny thing.
It turns up when you don’t really expect it.

It’s like one day you realize that the fairy tale may be slightly different than you dreamed.
The castle, well, it may not be a castle. And it’s not so important happy ever after, just that its happy right now.

See once in a while, once in a blue moon, people will surprise you and, once in a while,
people may even take your breath away.”

[Meredith Grey, in Grey's Anatomy]

Posted by Ana in 19:45:09 | Permalink | No Comments »

Monday, February 26, 2007

Curtas da urgência

[e prometo que não escrevo mais posts médicos esta semana... benvindos ao mundo das 42 horas semanais de trabalho e à ausência de outros temas interessantes de conversa no meu pequeno mundo]

O Sr. A tem 80 e muitos anos e tudo o que a idade lhe dá direito: insuficiência cardíaca congestiva, angina de peito, hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo II e, desta vez, uma infecção respiratória com insuficiência. Está deitado numa maca periclitante e está a fazer oxigenoterapia.

Depois de lhe fazer o exame físico - com a atenção que resta depois de 8 horas de urgência nocturna (e 8 horas bem devidas aos lençóis), digo-lhe:

- Sr. A., vou só virar-lhe as costas um bocadinho para escrever no computador o exame que lhe fiz, e daqui a pouco vou ter que o picar para ver como está o oxigénio no sangue, [vulgo gasimetria, colheita de sangue arterial, procedimento doloroso q.b. para o doente e de sucesso técnico caprichoso], pode ser?

- humpf grumpf grumpf… (ou algo parecido vindo de dentro da máscara de oxigénio).

[Pausa na dactilografia da história, nova voltinha na cadeira, tiro a máscara.]

- Ora diga lá, Sr. A?

- Oh Dra., eu estava a dizer… mas há alguma coisa que a Dra. peça, que eu não faça com um sorriso?

:D

Posted by Ana in 20:58:33 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, February 24, 2007

De volta

A preguiça foi muita, é um facto. O stress pós-traumático também :) Daí a necessidade tão genuína de não pensar, em nada, de ter uma pausa, arrumar ideias (por muito desarrumadas que elas persistam). Ter paz, ter silêncio.

E agora, um novo começo. Depois de tantos anos (e, não raras vezes, a dúvida da vocação, da competência, da adequação), é oficial. Esta é a profissão mais bonita do mundo. É isto que eu quero fazer, e é incrível como um dia me foi tão difícil decidir e como, agora, não me consigo sequer imaginar neste lugar.

Não é tão fácil como pensei. Levo comigo as perguntas difíceis que me fazem, os prognósticos que não queria dizer, a crença infantil de que a ciência possa não ser dona de tudo, que o terminal não seja terminal, que os milagres sejam possíveis. Levo comigo a sensação terrível de que, no final, somos sempre impotentes, mesmo fazendo o melhor que sabemos e, ainda assim sabendo que o destino último escapa em grande medida ao nosso controle.

Não é, nem de longe nem de perto, tão gratificante como pensei… É muito, muito mais!

Levo comigo os sorrisos agradecidos pelo infinitamente pouco que se fez…

…a D. M. que no final da urgencia se abraça a mim e diz”se soubesse que ia ser tão bem atendida tinha-lhe trazido uma toalha bordada, sabe que eu tenho muito jeito” :D; a M. que teve uma noite mais louca de discoteca e sai depois de umas horas de soro, com a mini-saia e uns sapatos de plástico azul gentilmente cedidos pelo serviço de urgência, vencida pelo cansaço e furiosa por lhe terem deixado os sapatos novos na discoteca… fica um sorriso feliz impossível de conter por essa fragilidade humana que nos torna todos iguais, apesar de tudo…

Posted by Ana in 05:33:35 | Permalink | No Comments »

Monday, November 13, 2006

Tempo

Seria mais fácil se fosse possível fazer as coisas por etapas, e em cada um delas dedicar-me apenas e só a uma causa…

Custa-me que este exame, o grande exame que nos passa de um estudante de medicina crescido num médico recém-nascido, com tudo por aprender, seja tão importante -  ou, não o sendo, que o pareça. 
Custa-me não ser capaz de fazer um intervalo em tudo, apenas para me dedicar a fundo a isto e ter a certeza que o resultado será o melhor que eu posso dar.
E custa-me que, às vezes, nem eu própria já consiga compreender este cansaço e esta causa.

Seria mais fácil, sem dúvida, se fosse possível fazer disto um parêntesis no tempo.
Julguei que fosse mais fácil separar tudo do resto, mas continua a ser preciso disponibilidade para os outros, sorrisos. Continua a ser preciso tempo para ouvir, para ajudar em mil e uma coisas. Continua a ser preciso brincar com os outros, para que os dias sejam mais fáceis. Julguei que ia ser mais fácil - como sempre dizem, as pessoas compreendem. O que eu não estava à espera é que eu própria precisasse tanto destas pequenas coisas.

Não é fácil dizer que não a tanta coisa, que rouba(?) tempo ao trabalho, mas acrescenta tempo à vida, que ajuda a manter laços, a manter a teia que liga ao mundo, que continua lá e não quer saber de momentos parados e de importância sobrestimada. “Faz-se o que se pode” - cai-se nas frases feitas. Faz-se menos (ou trabalha-se menos) e, apesar da recordação agridoce do dever incumprido, o coração fica mais cheio.
Estuda-se até mais tarde, volta-se da festa mais cedo (mas vai-se à festa na mesma!! :P).
Para criar tempo dentro do tempo para quem interessa, para o que faz sorrir, para o que dá alento para continuar.

Posted by Ana in 20:05:07 | Permalink | Comments (2)

Sunday, October 22, 2006

Piazolla & Yo-Yo Ma

[A um amigo único e atento, presente mesmo quando distante,
e que traz a música dentro de si...]

Muitos anos depois de me teres apresentado o Piazzolla, que boa surpresa o
Yo-Yo Ma… Aqui estão, os dois, num grande momento de recriação do Libertango.

Posted by Ana in 21:24:27 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, October 18, 2006

O sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz lá dentro,
apetecia entrar nele,
tirar a roupa,
ficar nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Posted by Ana in 23:03:15 | Permalink | Comments Off

Tuesday, October 17, 2006

Caleidoscópio

De um modo tão claro, o mundo abre-se à minha frente. Tantas mudanças e tanta responsabilidade, com o contraponto inegavelmente compensador de fazer as coisas e resolver os problemas por mim própria… E, apesar de sentir esta gente tão igual a mim, com o mesmo calor no sangue e a mesma alegria no sorriso, um sabor agridoce persiste no final. Não de solidão, porque tantas vezes a distância se revela a proximidade… mas de algo que eu dificilmente consigo definir, como se faltasse algo sem o qual o quadro não está completo.

Estar fora do meu mundo, em tantos aspectos, torna-me alguém maior do que eu alguma vez julguei poder ser. Mais uma vez, um amigo que eu nunca poderei esquecer disse palavras que se tornaram um destino: “viver uma vida diferente, num lugar estranho, mostra-te com certeza quão amplos os horizontes podem ser, mas dificilmente mudará a pessoa que tu és”. E, tantas vezes, os horizontes e as limitações são as regras a que nós próprios nos impomos (muito antes dos outros o fazerem), as coisas que não fazemos apenas porque pareceriam estranhas, ou pouco adequadas.

Tão longe de casa (de tantas maneiras), cada vez mais tenho a revelação de que nós podemos ser tudo, não ter amarras nem ideias pré-concebidas sobre nós mesmos - e fazer apenas aquilo que é natural e intuitivo (mesmo que não previsível), respirar alegria como se essa fosse a nossa verdade última.

E sentir o tempo a passar, longe de tanto ruído, é tão fácil abstrair-me dos meus medos, estar mais próxima de mim.”

Catania, Itália
Julho 2006

Há histórias que acontecem assim.
Não estamos à espera, mas não negamos a possibilidade.
Acontecem, como um capítulo à parte, uma história paralela dentro da nossa própria história.

E é sempre tão bom (quase irresistível), voltar a essas memórias. É por isso que qualquer memória de Itália me arranca, tantos meses depois, um sorriso igualmente sincero e uma alegria genuína. Uma alegria que eu não consigo sequer atribuir a um momento.
Podia ser por toda a gente incrível que conheci, ou pela aventura constante de viver numa cidade completamente nova, ou pela disponibilidade profissional com que todos nos receberam…
Podia ser pelas histórias compartilhadas à luz da fogueira, onde os nomes eram o menos importante; podia ser pelo banho de mar à meia-noite a ver estrelas cadentes (como manda a tradição!), ou podia ser pelos inigualáveis granita di mandorla ou frappé à la nutella (hum!!)…
Podia ser por tanta coisa em particular - ou talvez apenas pela cor indefinida que liga todo estes momentos num mesmo espectro de luz.

Acima de tudo, vale pelo regresso, por tudo o que de novo se traz (e aqui eu tenho que dar razão, qualquer experiência Erasmus ou semelhante dá muito, mesmo no caso das pessoas que vão e voltam sem saber cozinhar ;)); vale pelo valor acrescido (ou apenas real e subitamente descoberto) que se passa a dar a tantos tipos de coisas boas que tomamos como dados adquiridos.

Hoje, para mim, vale pela surpresa que foi reler este desabafo, perdido nas primeiras páginas do Moleskine, e tão adequado a este momento. Um momento em que, de novo, o mundo se abre num caleidoscópio de possibilidades - onde as escolhas precisam de ser feitas… e onde é bom acreditar que “nós podemos ser tudo, não ter amarras nem ideias pré-concebidas sobre nós mesmos - e fazer apenas aquilo que é natural e intuitivo (mesmo que não previsível), respirar alegria como se essa fosse a nossa verdade última”.

Posted by Ana in 21:40:15 | Permalink | Comments (5)

Tuesday, October 10, 2006

A beleza, por Ricky Fitts

 

It was one of those days when it’s a minute away from snowing and there’s this electricity in the air, you can almost hear it.

And this bag was, like, dancing with me.
Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes.

And that’s the day I knew there was this entire life behind things, and… this incredibly benevolent force, that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever.
Video’s a poor excuse, I know.

But it helps me remember… and I need to remember…
Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in
.”

[Ricky Fitts, in American Beauty]

Tão óbvio. E tão fácil de esquecer.

Posted by Ana in 20:55:20 | Permalink | No Comments »