História de um olhar perdido numa noite de Dezembro
[Miragem nos olhos de um amigo, de onde nasceu a paixão da Marta e da sua história, com eventuais coincidências com a realidade e algumas meras ficções]
Sabes, Marta, já passou tanto tempo e eu continuo sem saber o que aconteceu, desde aquele dia em que descobri que para viver me bastava o alimento doce das tuas palavras e do teu silêncio. Não sei como aconteceu, nunca antes tinha vivido nesta obsessão, cada minuto a suceder-se ao próximo com a eternidade de permeio, tantas coisas para te dizer, tantos sonhos que trago comigo, e que agora já não são só meus porque tu estás sempre lá. Sabes, Marta, quando penso em ti lembro-me sempre daquela noite de inverno em que saímos com os nossos amigos da faculdade. Estavas no meio de todos nós, não estavas em nenhuma conversa em particular mas sorrias a toda a gente, e no teu sorriso, Marta, – no teu sorriso, cabia o mundo inteiro, cabia o vento gelado da foz em noites de dezembro, cabia o mar a rugir furiosamente por trás de nós, cabia o meu olhar perdido a olhar para ti como se tudo à tua volta fosse um cenário de papel.
No trémulo do vento
Na rotação lenta
Insuportavelmente lenta
Do céu de veludo
O teu silêncio
Tem a força de mil promessas
E o instante que não passa
Traz nas mãos o fogo efémero do entardecer
E a força irrevogável da eternidade”
Eu sei que não devia ter lido. Mas só assim pude saber que o teu olhar não foi uma miragem. Dizem que quem muito quer tudo pode. Eu queria-te com a força bruta das ondas na praia do homem do leme. Eu queria-te com a raiva descontrolada do vento a esbofetear as bandeiras.
Isso não bastou nesse dia. O mundo é, muitas vezes, mais forte do que nós. Nós somos uma pluma a fazer braço de ferro com a tormenta. Eu fui uma pluma levada pela tormenta. Para longe de ti. Eu quero-te com a força bruta das ondas na praia do homem do leme. Eu quero-te com a raiva descontrolada do vento a esbofetear as bandeiras.
Isso não bastará hoje. Por isso guardo-te no templo sagrado dos meus sonhos e enterro-te nas palavras que nascem sem consentimento das minhas mãos - para que, nessa noite, sejas sempre eterna para mim.
