Monday, July 24, 2006

História de um olhar perdido numa noite de Dezembro


[Miragem nos olhos de um amigo, de onde nasceu a paixão da Marta e da sua história, com eventuais coincidências com a realidade e algumas meras ficções]

Sabes, Marta, já passou tanto tempo e eu continuo sem saber o que aconteceu, desde aquele dia em que descobri que para viver me bastava o alimento doce das tuas palavras e do teu silêncio. Não sei como aconteceu, nunca antes tinha vivido nesta obsessão, cada minuto a suceder-se ao próximo com a eternidade de permeio, tantas coisas para te dizer, tantos sonhos que trago comigo, e que agora já não são só meus porque tu estás sempre lá. Sabes, Marta, quando penso em ti lembro-me sempre daquela noite de inverno em que saímos com os nossos amigos da faculdade. Estavas no meio de todos nós, não estavas em nenhuma conversa em particular mas sorrias a toda a gente, e no teu sorriso, Marta, – no teu sorriso, cabia o mundo inteiro, cabia o vento gelado da foz em noites de dezembro, cabia o mar a rugir furiosamente por trás de nós, cabia o meu olhar perdido a olhar para ti como se tudo à tua volta fosse um cenário de papel.



Nesse momento olhaste para mim, por um instante brevíssimo, e eu juraria que me leste a alma como se eu fosse transparente; mas no instante seguinte tu eras de novo o teu sorriso, o dom com que abençoavas o mundo sem com ele premiar ninguém em especial. A tua beleza era tão diferente de toda a beleza. Eras tu. Fascinante porque eras uma revelação constante, e em cada gesto te tornavas mais, mais, mais.

Às vezes, à noitinha, venho passear à foz sozinho, a ver se os meus fantasmas fogem assustados pelo ventaval, ou se eu aprendo a viver com eles sem medo ou desconforto. Muitas vezes te vejo aqui, como te vi naquele dia em que pela primeira vez te olhei a sério, e pergunto-me que teria acontecido se tivesses deixado o teu olhar descansar no meu nessa noite longuínqua, por um segundo mais que fosse. Talvez não mudasse nada. Mas todos os anos que vivemos juntos nessa faculdade, enterrados em livros e fotocópias, sebentas e café, foram para mim a ausência repetida de te ter à distância imensa que a proximidade da nossa amizade nos dava, desejando-te nas entrelinhas das aulas, apaixonado pelas tuas mãos brancas e esguias, pelo teu olhar de mel, por essa beleza redimida ao fim do dia - o cabelo em desalinho, a bata debaixo do braço, o caderno de poemas com que andavas sempre a espreitar por debaixo da pasta, para matar a morte que todos os dias te desafiava e gerar um mundo onde tudo era grande como o teu sorriso. Sabes, Marta, não posso mais viver nesta angústia, escrevo cartas que deito fora ou para a gaveta, a minha casa está um caos, é o tapete branco do rasto do meu amor por ti. Um dia destes vou buscar-te ao fim do dia, ponho-te uma venda nos olhos e levo-te até àquele lugar mágico na foz, vamos ver juntos o pôr-do-sol como eu sempre quis. E aí, Marta, hás-de lembrar te daquele dia em que escreveste no teu caderno de poemas:


“A lua de dezembro sorri
No trémulo do vento
Na rotação lenta
Insuportavelmente lenta
Do céu de veludo
O teu silêncio
Tem a força de mil promessas
E o instante que não passa
Traz nas mãos o fogo efémero do entardecer
E a força irrevogável da eternidade”

Eu sei que não devia ter lido. Mas só assim pude saber que o teu olhar não foi uma miragem. Dizem que quem muito quer tudo pode. Eu queria-te com a força bruta das ondas na praia do homem do leme. Eu queria-te com a raiva descontrolada do vento a esbofetear as bandeiras.

Isso não bastou nesse dia. O mundo é, muitas vezes, mais forte do que nós. Nós somos uma pluma a fazer braço de ferro com a tormenta. Eu fui uma pluma levada pela tormenta. Para longe de ti. Eu quero-te com a força bruta das ondas na praia do homem do leme. Eu quero-te com a raiva descontrolada do vento a esbofetear as bandeiras.

Isso não bastará hoje. Por isso guardo-te no templo sagrado dos meus sonhos e enterro-te nas palavras que nascem sem consentimento das minhas mãos - para que, nessa noite, sejas sempre eterna para mim.

Posted by Ana in 14:20:12 | Permalink | Comments (3)