Tuesday, September 12, 2006

ao anoitecer | Al Berto

 

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

Saudades de ler poesia que eu gostava de ter escrito.
Hoje, outra vez. Ao anoitecer.
Saber que não é um delírio, a difícil arte da melancolia.

(deixar) viver… não, não sobre a pele - 
- mas nesse lugar impossível e improvável sob, dentro dela.

Como tatuagens. Que o futuro não apaga, que a memória não fenece.

 

Posted by Ana at 21:36:39 | Permalink | Comments (2)

Monday, September 4, 2006

História do Sr. C.

Em 6 anos, corremos sempre na busca do objectivo mais imediato, do trabalho seguinte, do bloco seguinte, do serviço seguinte - e, de repente, entro na casa onde ainda ontem fui mais uma caloirinha, e desta vez saio com com uma certidão de licenciatura. É estranho, e foi uma felicidade inesperada. Não orgulho, felicidade apenas. Como se estivesse sempre tão longe e, de repente estivesse lá. Na altura certa.

E estes anos (que são poucos, e no entanto são os primeiros de muitos) fizeram-me ver que orgulho não tem nada a ver com uma profissão destas. Estes anos fizeram-me ver que, acima de tudo, a nossa função só pode ser de serviço, de dádiva, mesmo quando se é um simples estudante que sabe pouco, que aparece lá todos os dias para medir os sinais vitais, auscultar, falar um bocadinho e escrever os diários. E isso, sim, é incrível - a gratidão que as pessoas podem demonstrar no fim, os laços que se criam (temporários é certo, mas não por isso menos importantes), o sentimento genuíno de agradecimento. E, muitas das vezes, fica apenas a sensação que não se fez nada que merecesse tanto apreço.

O Sr. C. foi o primeiro doente que eu segui no bloco de Medicina Interna. Pelo que me disseram, já não havia grande paciência para o senhor que, segundo soube, era bastante rezingão e estava sempre a reclamar - e eu, que estava na parte mais baixa da cadeia, fui incumbida de acompanhar a sua febre cíclica e persistente, após inúmeros exames negativos. Basicamente, ninguém sabia o que ele tinha.

Sim, ele não era muito comunicativo, e respondeu ao meu primeiro e efusivo “Bom dia!” com um monossílabo. Mas os dias passaram, e eu lembrei-me de novo da raposa d’ “O Principezinho”. Passei dia após dia a medir-lhe os sinais vitais, auscultar o que quase já sabia de cor, avaliar gráficos de temperatura tão imprevisíveis como caprichosos. E a fazer-lhe perguntas chatas sobre como passou a noite, quem foram as visitas, como correu o exame, o que estava a ler. Não era da minha conta, de facto. No entanto, na altura da alta, quando finalmente lhe diagnosticaram uma Histiocitose de Células de Langerhans numa das muitas biópsias realizadas, o Sr. C era o primeiro a cumprimentar-me com um efusivo bom dia, a perguntar-me os resultados dos exames, a contar-me como tinham sido as visitas, a reclamar das pessoas que não lhe davam atenção, a pedir que lhe fizesse o exame neurológico como fazia ao outro doente com um AVC [mesmo que, no caso dele, isso não tivesse o mínimo interesse]. Foi por tudo isso que, quando, ao fim de 60 dias de internamento, a médica dele (e minha tutora) me disse que podia ir eu dar-lhe a tão esperada notícia, eu fiquei tão contente. Porque eu não fiz nada de cientificamente muito relevante, é um facto - mas, de tantas maneiras, eu sentia aquele doente como se fosse mesmo meu. E foi tão bom lembrar-me do monossílabo do primeiro dia naquele senhor que sorria sempre que me via entrar na enfermaria e, agora, me apertava a mão tão agradecido e com uma doçura inesperada. Mesmo que, mais uma vez, tenha ficado a sensação de que o que se fez não justificava tanto agradecimento.

O dourado da profissão só se vê de início - e é tão efémero quanto vazio. Mas quando se sente este tipo de recompensa - aí sim, sabe-se o que verdadeiramente vale a pena. Nada a ver com orgulho, tudo a ver com dádiva. E dessa vez, pela primeira vez, eu senti-me um bocadinho médica. Como se, à frente dos meus próprios olhos, eu tivesse finalmente percebido.

Continua a ser estranho, e sê-lo-á por muito tempo. Não sei como sobrevivem estas ideias românticas da medicina, após anos e anos de experiência, e de camadas e camadas de uma carapaça que, acredito, muita gente não tenha por opção nem desinteresse - mas acima de tudo por defesa.

Continua a ser estranho, mas há uma parte de mim que quer acreditar que exista uma maneira deste encantamento não se corromper com o quotidiano nem com as desilusões. Até porque acima de tudo, eu sinto que perder esta convicção é uma traição profunda a alguma coisa cá dentro, à infância dos afectos, a qualquer coisa muito próxima da fé. Pode ser infantil de facto, até porque eu continuo a sentir-me muito mais perto dos meus 15 anos do que dos meus 25… mas isso é apenas o meu complexo de Peter Pan mal resolvido - e dá matéria que chegue para muitos posts.

Posted by Ana at 19:10:59 | Permalink | Comments (3)

Sunday, September 3, 2006

De volta…

De volta… depois de uma semaninha muito bem passada!

Felizmente correu tudo muito bem lá pelo congresso! A moderadora da minha mesa era muito querida e (apesar de eu estar - etariamente - um bocado desajustada), acho que a apresentação também correu bem. Felizmente, a discussão também foi uma coisa relaxada, não houve ninguém mauzinho a fazer perguntas difíceis.
E a seguir, foi tempo de passear, de conhecer melhor uma cidade ampla e linda, com uma história muito vívida e sempre presente nas suas ruas, mas nem sempre preservada como o deveria ser.
Uma cidade cheia de contrastes, onde a riqueza vivem paredes-meias com a pobreza extrema, num equilíbrio precário que, surpreendentemente, não parece tão inseguro como se poderia supor. Mas acima de tudo uma cidade com paisagens de encher o olhar, cuja gente parece, apesar e sempre, alegre. E isto, apesar de tudo, não tem grande base lógica para ser uma surpresa - como se nós, para sermos alegres, precisássemos de ser felizes. E a questão é que, apesar de eles não terem propriamente grandes motivos para serem felizes - e, entenda-se por motivos, as condições básicas de habitação, educação, cultura, segurança, que para nós quase são coisas inquestionáveis -, são alegres, têm essa luz que não precisa de ter motivo ou base racional para existir. Só porque sim.

E, de muitas formas, custa a imaginar que antes do samba, se ouviu lá o nosso fado. Porque apesar de nós ainda estarmos definitivamente presentes, na história e na arquitectura, na cultura deles como povo colonizado e (melhor ou pior) descolonizado, e na herança última da língua, nós somos tão mais sofridos, apesar de tudo. Menos samba e carnaval. Mais fado, mais saudade.

Apesar de todos os contrastes, uma cidade linda, em que o coração fica pequeno com a vista desde o Pão de Açúcar, com Copacabana debruçada sobre um Atlântico menos frio, mas sempre agreste. Onde se sente a fé de um povo que, pegando na ideia de uma religiosa princesa portuguesa, já depois do domínio português, pediu à França um Cristo Redentor que atravessou esse mesmo mar, para fazerem dele um símbolo ao mundo. Não podia ser um símbolo imperial como o Coliseu de Roma, nem um símbolo tão ascético como a Eiffel de Paris. Basicamente, não podia ser outra coisa.

Sim, é uma cidade maravilhosa - e eu quase entendo o que eles queriam dizer com cidade maravilhosa. E agora, também é bom voltar…

Posted by Ana at 21:24:02 | Permalink | Comments (3)