Monday, September 4, 2006

História do Sr. C.

Em 6 anos, corremos sempre na busca do objectivo mais imediato, do trabalho seguinte, do bloco seguinte, do serviço seguinte - e, de repente, entro na casa onde ainda ontem fui mais uma caloirinha, e desta vez saio com com uma certidão de licenciatura. É estranho, e foi uma felicidade inesperada. Não orgulho, felicidade apenas. Como se estivesse sempre tão longe e, de repente estivesse lá. Na altura certa.

E estes anos (que são poucos, e no entanto são os primeiros de muitos) fizeram-me ver que orgulho não tem nada a ver com uma profissão destas. Estes anos fizeram-me ver que, acima de tudo, a nossa função só pode ser de serviço, de dádiva, mesmo quando se é um simples estudante que sabe pouco, que aparece lá todos os dias para medir os sinais vitais, auscultar, falar um bocadinho e escrever os diários. E isso, sim, é incrível - a gratidão que as pessoas podem demonstrar no fim, os laços que se criam (temporários é certo, mas não por isso menos importantes), o sentimento genuíno de agradecimento. E, muitas das vezes, fica apenas a sensação que não se fez nada que merecesse tanto apreço.

O Sr. C. foi o primeiro doente que eu segui no bloco de Medicina Interna. Pelo que me disseram, já não havia grande paciência para o senhor que, segundo soube, era bastante rezingão e estava sempre a reclamar - e eu, que estava na parte mais baixa da cadeia, fui incumbida de acompanhar a sua febre cíclica e persistente, após inúmeros exames negativos. Basicamente, ninguém sabia o que ele tinha.

Sim, ele não era muito comunicativo, e respondeu ao meu primeiro e efusivo “Bom dia!” com um monossílabo. Mas os dias passaram, e eu lembrei-me de novo da raposa d’ “O Principezinho”. Passei dia após dia a medir-lhe os sinais vitais, auscultar o que quase já sabia de cor, avaliar gráficos de temperatura tão imprevisíveis como caprichosos. E a fazer-lhe perguntas chatas sobre como passou a noite, quem foram as visitas, como correu o exame, o que estava a ler. Não era da minha conta, de facto. No entanto, na altura da alta, quando finalmente lhe diagnosticaram uma Histiocitose de Células de Langerhans numa das muitas biópsias realizadas, o Sr. C era o primeiro a cumprimentar-me com um efusivo bom dia, a perguntar-me os resultados dos exames, a contar-me como tinham sido as visitas, a reclamar das pessoas que não lhe davam atenção, a pedir que lhe fizesse o exame neurológico como fazia ao outro doente com um AVC [mesmo que, no caso dele, isso não tivesse o mínimo interesse]. Foi por tudo isso que, quando, ao fim de 60 dias de internamento, a médica dele (e minha tutora) me disse que podia ir eu dar-lhe a tão esperada notícia, eu fiquei tão contente. Porque eu não fiz nada de cientificamente muito relevante, é um facto - mas, de tantas maneiras, eu sentia aquele doente como se fosse mesmo meu. E foi tão bom lembrar-me do monossílabo do primeiro dia naquele senhor que sorria sempre que me via entrar na enfermaria e, agora, me apertava a mão tão agradecido e com uma doçura inesperada. Mesmo que, mais uma vez, tenha ficado a sensação de que o que se fez não justificava tanto agradecimento.

O dourado da profissão só se vê de início - e é tão efémero quanto vazio. Mas quando se sente este tipo de recompensa - aí sim, sabe-se o que verdadeiramente vale a pena. Nada a ver com orgulho, tudo a ver com dádiva. E dessa vez, pela primeira vez, eu senti-me um bocadinho médica. Como se, à frente dos meus próprios olhos, eu tivesse finalmente percebido.

Continua a ser estranho, e sê-lo-á por muito tempo. Não sei como sobrevivem estas ideias românticas da medicina, após anos e anos de experiência, e de camadas e camadas de uma carapaça que, acredito, muita gente não tenha por opção nem desinteresse - mas acima de tudo por defesa.

Continua a ser estranho, mas há uma parte de mim que quer acreditar que exista uma maneira deste encantamento não se corromper com o quotidiano nem com as desilusões. Até porque acima de tudo, eu sinto que perder esta convicção é uma traição profunda a alguma coisa cá dentro, à infância dos afectos, a qualquer coisa muito próxima da fé. Pode ser infantil de facto, até porque eu continuo a sentir-me muito mais perto dos meus 15 anos do que dos meus 25… mas isso é apenas o meu complexo de Peter Pan mal resolvido - e dá matéria que chegue para muitos posts.

Posted by Ana in 19:10:59
Comments

3 Responses

  1. Zé Manel says:

    Eu acredito que ficarás sempre mais perto dos 15 do que dos 25 ou dos 35,45, etc… e é isso que faz de ti quem tu és!! ;) Nunca mudes!!!

    Beijinhos

  2. Luis says:

    Gostei do artigo publicado, apesar de, infelizmente, o ter encontrado por razão de uma pesquisa. Foi pesquisando na net por “histiocitose” que aqui vim parar.É agora que aqui estou, que, perdou-me o abuso, venho pedir se me pode indicar algumas informações sobre essa doença, a histiocitose, que foi diagnosticada recentemente num familiar, e sobre a qual tão poucas informações existem. Cumprimentos, e desde já o meu obrigado

  3. Ana says:

    Luis, fico contente por ter gostado do post, embora infelizmente não o tenha encontrado pelo melhor motivo.

    De facto, ainda há muita coisa que se desconhece sobre a Histiocitose de Células de Langerhans, e dai a escassez de informação na web. De facto, permanece a dúvida se é um processo reactivo a algum tipo de agressão interna ou um processo proliferativo em si mesmo. É uma patologia que pode permanecer relativamente assintomática ou atingir vários locais anatomicamente distintos (osso, pele, mucosas, pulmão, cérebro…), com manifestações tão amplas quantas a sua localização. Apesar de tudo, a localização mais frequente no adulto é a nível pulmonar… e, nessa situação, existe alguma informação consensual que lhe poderei dar caso a queira.

    Entretanto, encontrei um artigo que resume em linhas gerais a doença (http://www.emedicine.com/derm/topic216.htm).
    Pode ainda encontrar mais informações em http://www.pubmed.org.

    Espero ter ajudado.

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