Sunday, October 22, 2006

Piazolla & Yo-Yo Ma

[A um amigo único e atento, presente mesmo quando distante,
e que traz a música dentro de si...]

Muitos anos depois de me teres apresentado o Piazzolla, que boa surpresa o
Yo-Yo Ma… Aqui estão, os dois, num grande momento de recriação do Libertango.

Posted by Ana at 21:24:27 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, October 18, 2006

O sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz lá dentro,
apetecia entrar nele,
tirar a roupa,
ficar nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Posted by Ana at 23:03:15 | Permalink | Comments Off

Tuesday, October 17, 2006

Caleidoscópio

De um modo tão claro, o mundo abre-se à minha frente. Tantas mudanças e tanta responsabilidade, com o contraponto inegavelmente compensador de fazer as coisas e resolver os problemas por mim própria… E, apesar de sentir esta gente tão igual a mim, com o mesmo calor no sangue e a mesma alegria no sorriso, um sabor agridoce persiste no final. Não de solidão, porque tantas vezes a distância se revela a proximidade… mas de algo que eu dificilmente consigo definir, como se faltasse algo sem o qual o quadro não está completo.

Estar fora do meu mundo, em tantos aspectos, torna-me alguém maior do que eu alguma vez julguei poder ser. Mais uma vez, um amigo que eu nunca poderei esquecer disse palavras que se tornaram um destino: “viver uma vida diferente, num lugar estranho, mostra-te com certeza quão amplos os horizontes podem ser, mas dificilmente mudará a pessoa que tu és”. E, tantas vezes, os horizontes e as limitações são as regras a que nós próprios nos impomos (muito antes dos outros o fazerem), as coisas que não fazemos apenas porque pareceriam estranhas, ou pouco adequadas.

Tão longe de casa (de tantas maneiras), cada vez mais tenho a revelação de que nós podemos ser tudo, não ter amarras nem ideias pré-concebidas sobre nós mesmos - e fazer apenas aquilo que é natural e intuitivo (mesmo que não previsível), respirar alegria como se essa fosse a nossa verdade última.

E sentir o tempo a passar, longe de tanto ruído, é tão fácil abstrair-me dos meus medos, estar mais próxima de mim.”

Catania, Itália
Julho 2006

Há histórias que acontecem assim.
Não estamos à espera, mas não negamos a possibilidade.
Acontecem, como um capítulo à parte, uma história paralela dentro da nossa própria história.

E é sempre tão bom (quase irresistível), voltar a essas memórias. É por isso que qualquer memória de Itália me arranca, tantos meses depois, um sorriso igualmente sincero e uma alegria genuína. Uma alegria que eu não consigo sequer atribuir a um momento.
Podia ser por toda a gente incrível que conheci, ou pela aventura constante de viver numa cidade completamente nova, ou pela disponibilidade profissional com que todos nos receberam…
Podia ser pelas histórias compartilhadas à luz da fogueira, onde os nomes eram o menos importante; podia ser pelo banho de mar à meia-noite a ver estrelas cadentes (como manda a tradição!), ou podia ser pelos inigualáveis granita di mandorla ou frappé à la nutella (hum!!)…
Podia ser por tanta coisa em particular - ou talvez apenas pela cor indefinida que liga todo estes momentos num mesmo espectro de luz.

Acima de tudo, vale pelo regresso, por tudo o que de novo se traz (e aqui eu tenho que dar razão, qualquer experiência Erasmus ou semelhante dá muito, mesmo no caso das pessoas que vão e voltam sem saber cozinhar ;)); vale pelo valor acrescido (ou apenas real e subitamente descoberto) que se passa a dar a tantos tipos de coisas boas que tomamos como dados adquiridos.

Hoje, para mim, vale pela surpresa que foi reler este desabafo, perdido nas primeiras páginas do Moleskine, e tão adequado a este momento. Um momento em que, de novo, o mundo se abre num caleidoscópio de possibilidades - onde as escolhas precisam de ser feitas… e onde é bom acreditar que “nós podemos ser tudo, não ter amarras nem ideias pré-concebidas sobre nós mesmos - e fazer apenas aquilo que é natural e intuitivo (mesmo que não previsível), respirar alegria como se essa fosse a nossa verdade última”.

Posted by Ana at 21:40:15 | Permalink | Comments (5)

Tuesday, October 10, 2006

A beleza, por Ricky Fitts

 

It was one of those days when it’s a minute away from snowing and there’s this electricity in the air, you can almost hear it.

And this bag was, like, dancing with me.
Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes.

And that’s the day I knew there was this entire life behind things, and… this incredibly benevolent force, that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever.
Video’s a poor excuse, I know.

But it helps me remember… and I need to remember…
Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in
.”

[Ricky Fitts, in American Beauty]

Tão óbvio. E tão fácil de esquecer.

Posted by Ana at 20:55:20 | Permalink | No Comments »

Monday, October 2, 2006

Nós e a música

[ou reflexões mais ou menos filosóficas de amigos após um concerto de Maurice Ravel]

Todos nós gostamos muito de música. Alguns de nós têm uma paixão imensa, outros estudaram, outros ainda tem apenas uma criatividade em contínua produção musical (de quantidade crescente e qualidade… hum… variável :) E temos muitas opiniões diferentes, quanto à importância de uma aptidão natural, de um ensino mais universal, do peso da criatividade e do trabalho.

Hoje foi um concerto diferente, porque encontrei pessoas que estudaram comigo, que continuaram e continuam a estudar música - e me fizeram lembrar o quanto isso foi importante. Uma espécie de nostalgia boa, da insónia da noite anterior à audição, dos dedos ficarem rígidos e frios - uma angústia pior do que qualquer outra: o medo da branca, de esquecer as notas, do silêncio do palco. Estranhamente, nesse silêncio, nesse segundo inicial, esquecia-se tudo - as notas, o ritmo, a melodia. Estranhamente, as coisas saíam como se fruto de uma vontade alheia, paralela, incontrolável e inconsciente. E isso era o mais fascinante. E eu nem sequer fui particularmente boa, mas aquele momento de palco era o momento da entrega e da fragilidade absolutas.

Por agora, ficou essa maneira boa de exorcizar a instabilidade, o excesso de coisas, a confusão dos dias. De ter silêncio, organizado em forma de notas, é certo - mas um silêncio mais íntimo do que o próprio silêncio. Ficou a vontade de voltar, mais a sério, e isso ficará sempre. Quem sabe… E para quem já voltou uma vez, não assusta regressar de novo. 

E é por isso que eu acho encantador que muitos países da Europa Central e de Leste tenham o costume de ensinar música de uma maneira tão transversal, onde as crianças aprendem a contar pela relação das semibreves e semínimas. Sem dúvida que é preciso aptidão para ser excepcionalmente bom, para compor estruturas melódicas novas - mas executar música, por si, é de uma lógica matemática que não é surpreendentemente difícil. E pode dar tanto. Executar música envolve num gesto único, memória visual e auditiva, coordenação motora e a emoção única de estar a criar algo de novo no silêncio…

Uma guitarra num serão faz sempre uma festa (mesmo que seja ao som de “Odeio o BPI”)… uma peça tocada ao final do dia de estudo faz maravilhas pela saúde mental…  A música aproxima as pessoas entre si, e tantas vezes de si mesmas. É por isso é que eu sou tão radical. Nada de desculpas de falta de aptidão. Música já para todos :)

Posted by Ana at 01:37:37 | Permalink | Comments (2)