Nós e a música
[ou reflexões mais ou menos filosóficas de amigos após um concerto de Maurice Ravel]
Todos nós gostamos muito de música. Alguns de nós têm uma paixão imensa, outros estudaram, outros ainda tem apenas uma criatividade em contínua produção musical (de quantidade crescente e qualidade… hum… variável E temos muitas opiniões diferentes, quanto à importância de uma aptidão natural, de um ensino mais universal, do peso da criatividade e do trabalho.

Hoje foi um concerto diferente, porque encontrei pessoas que estudaram comigo, que continuaram e continuam a estudar música - e me fizeram lembrar o quanto isso foi importante. Uma espécie de nostalgia boa, da insónia da noite anterior à audição, dos dedos ficarem rígidos e frios - uma angústia pior do que qualquer outra: o medo da branca, de esquecer as notas, do silêncio do palco. Estranhamente, nesse silêncio, nesse segundo inicial, esquecia-se tudo - as notas, o ritmo, a melodia. Estranhamente, as coisas saíam como se fruto de uma vontade alheia, paralela, incontrolável e inconsciente. E isso era o mais fascinante. E eu nem sequer fui particularmente boa, mas aquele momento de palco era o momento da entrega e da fragilidade absolutas.
Por agora, ficou essa maneira boa de exorcizar a instabilidade, o excesso de coisas, a confusão dos dias. De ter silêncio, organizado em forma de notas, é certo - mas um silêncio mais íntimo do que o próprio silêncio. Ficou a vontade de voltar, mais a sério, e isso ficará sempre. Quem sabe… E para quem já voltou uma vez, não assusta regressar de novo.
E é por isso que eu acho encantador que muitos países da Europa Central e de Leste tenham o costume de ensinar música de uma maneira tão transversal, onde as crianças aprendem a contar pela relação das semibreves e semínimas. Sem dúvida que é preciso aptidão para ser excepcionalmente bom, para compor estruturas melódicas novas - mas executar música, por si, é de uma lógica matemática que não é surpreendentemente difícil. E pode dar tanto. Executar música envolve num gesto único, memória visual e auditiva, coordenação motora e a emoção única de estar a criar algo de novo no silêncio…
Uma guitarra num serão faz sempre uma festa (mesmo que seja ao som de “Odeio o BPI”)… uma peça tocada ao final do dia de estudo faz maravilhas pela saúde mental… A música aproxima as pessoas entre si, e tantas vezes de si mesmas. É por isso é que eu sou tão radical. Nada de desculpas de falta de aptidão. Música já para todos
“A música aproxima as pessoas entre si”
… hum, desde que comecei a levar a guitarra, comecei a notar um decréscimo nos convites para serões… Deixa-me reformular a tua ideia, segundo a minha experiência pessoal:
A música aproxima as pessoas que, sendo bons amigos à partida, estejam bem dispostas e bem dormidas, com disponibilidade mental para suportar os teus esquissos musicais de “qualidade… hum… variável :)”
Desde que comecei a tocar guitarra comecei a reparar no efeito libertador e terapeutico que é tocar, e acho que essa componente é quase desconhecida, e esqueceste-te de comentar.
De certeza que é formador para um individuo o stress de subir ao palco, e fazer parte de um todo que não podemos desiludir. Não tendo nunca vivido essa experiência (ainda, obviamente :), tudo a seu tempo), já me contento com as horas intermináveis que me entretenho sozinho no quarto a tocar.
Consigo-me esquecer de tudo o que se passa, só preciso da guitarra. Só isto já chega para apoiar a tua ideia de música para todos. Seríamos todos mais felizes.
:p é verdade… nada como o efeito terapêutico!
e outra coisa… não, não houve um decréscimo nos convites para os serões!
Olha o meu jantar pós-Harrison… está quase a acontecer!