Tuesday, October 17, 2006

Caleidoscópio

De um modo tão claro, o mundo abre-se à minha frente. Tantas mudanças e tanta responsabilidade, com o contraponto inegavelmente compensador de fazer as coisas e resolver os problemas por mim própria… E, apesar de sentir esta gente tão igual a mim, com o mesmo calor no sangue e a mesma alegria no sorriso, um sabor agridoce persiste no final. Não de solidão, porque tantas vezes a distância se revela a proximidade… mas de algo que eu dificilmente consigo definir, como se faltasse algo sem o qual o quadro não está completo.

Estar fora do meu mundo, em tantos aspectos, torna-me alguém maior do que eu alguma vez julguei poder ser. Mais uma vez, um amigo que eu nunca poderei esquecer disse palavras que se tornaram um destino: “viver uma vida diferente, num lugar estranho, mostra-te com certeza quão amplos os horizontes podem ser, mas dificilmente mudará a pessoa que tu és”. E, tantas vezes, os horizontes e as limitações são as regras a que nós próprios nos impomos (muito antes dos outros o fazerem), as coisas que não fazemos apenas porque pareceriam estranhas, ou pouco adequadas.

Tão longe de casa (de tantas maneiras), cada vez mais tenho a revelação de que nós podemos ser tudo, não ter amarras nem ideias pré-concebidas sobre nós mesmos - e fazer apenas aquilo que é natural e intuitivo (mesmo que não previsível), respirar alegria como se essa fosse a nossa verdade última.

E sentir o tempo a passar, longe de tanto ruído, é tão fácil abstrair-me dos meus medos, estar mais próxima de mim.”

Catania, Itália
Julho 2006

Há histórias que acontecem assim.
Não estamos à espera, mas não negamos a possibilidade.
Acontecem, como um capítulo à parte, uma história paralela dentro da nossa própria história.

E é sempre tão bom (quase irresistível), voltar a essas memórias. É por isso que qualquer memória de Itália me arranca, tantos meses depois, um sorriso igualmente sincero e uma alegria genuína. Uma alegria que eu não consigo sequer atribuir a um momento.
Podia ser por toda a gente incrível que conheci, ou pela aventura constante de viver numa cidade completamente nova, ou pela disponibilidade profissional com que todos nos receberam…
Podia ser pelas histórias compartilhadas à luz da fogueira, onde os nomes eram o menos importante; podia ser pelo banho de mar à meia-noite a ver estrelas cadentes (como manda a tradição!), ou podia ser pelos inigualáveis granita di mandorla ou frappé à la nutella (hum!!)…
Podia ser por tanta coisa em particular - ou talvez apenas pela cor indefinida que liga todo estes momentos num mesmo espectro de luz.

Acima de tudo, vale pelo regresso, por tudo o que de novo se traz (e aqui eu tenho que dar razão, qualquer experiência Erasmus ou semelhante dá muito, mesmo no caso das pessoas que vão e voltam sem saber cozinhar ;)); vale pelo valor acrescido (ou apenas real e subitamente descoberto) que se passa a dar a tantos tipos de coisas boas que tomamos como dados adquiridos.

Hoje, para mim, vale pela surpresa que foi reler este desabafo, perdido nas primeiras páginas do Moleskine, e tão adequado a este momento. Um momento em que, de novo, o mundo se abre num caleidoscópio de possibilidades - onde as escolhas precisam de ser feitas… e onde é bom acreditar que “nós podemos ser tudo, não ter amarras nem ideias pré-concebidas sobre nós mesmos - e fazer apenas aquilo que é natural e intuitivo (mesmo que não previsível), respirar alegria como se essa fosse a nossa verdade última”.

Posted by Ana at 21:40:15
Comments

5 Responses to “Caleidoscópio”

  1. Maria says:

    orgulho por ter feito parte e partilhado ;p

  2. Anita says:

    Fica na boca o sabor amargo pelo que não foi vivido…
    E a vontade de não o voltar a sentir…

  3. Ana says:

    Maria, : sim, sem dúvida que sem ti não seria a mesma coisa…
    sem ti…
    1 - eu n teria carregado um “ventilatore Bruno” desmontado (e insistentemente re-verificado) em 3 aeroportos seguidos;
    2 - não teria provado tantos gelados (porque tu não procuras os pontos turísticos no mapa, mas sim as gelatarias mais famosas! com’ è possibile, ragazza?)
    3 - NUNCA teria bebido vodka-red bull (quantos neurónios é que isso mata??)
    4 - e não saberia o que é um verdadeiro “uomo inutile”… pior! não teria tido um momento Baywatch! olha que grande perda que seria ;)

    bem… um mundo de coisas :)

  4. Ana says:

    Anita, fica sempre… e a vontade de não voltar a sentir é que faz com que criemos mais e melhores memórias! olha a viagem de carro pela bota inteira… isso sim vai ser uma grande memória! ;)

  5. Maria says:

    No dia em que vi no Telejornal a notícia de que a máfia siciliana organiza corridas de cavalos na auto-estrada de Messina (e não fiquei surpreendida ;p ), saiu na “Notícias Sábado” uma reportagem de viagem sobre a Sícilia, que é obrigatório leres!!
    A repórter propôs-se a visitar a Itália segundo as anotações e cartografia de Goethe. “Talvez procurasse, como ele, esse instante arrebatador em que nos dissolvemos para nos voltarmos a achar.”
    E aqui fica um cheirinho da descrição de Goethe quando chegou à ilha:
    “Quando quero escrever palavras só me vêm imagens aos olhos (…), e faltam-me os órgãos próprios para dar expressão a tudo isto.”

    Um beijinho!*

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