De volta
A preguiça foi muita, é um facto. O stress pós-traumático também Daí a necessidade tão genuína de não pensar, em nada, de ter uma pausa, arrumar ideias (por muito desarrumadas que elas persistam). Ter paz, ter silêncio.
E agora, um novo começo. Depois de tantos anos (e, não raras vezes, a dúvida da vocação, da competência, da adequação), é oficial. Esta é a profissão mais bonita do mundo. É isto que eu quero fazer, e é incrível como um dia me foi tão difícil decidir e como, agora, não me consigo sequer imaginar neste lugar.
Não é tão fácil como pensei. Levo comigo as perguntas difíceis que me fazem, os prognósticos que não queria dizer, a crença infantil de que a ciência possa não ser dona de tudo, que o terminal não seja terminal, que os milagres sejam possíveis. Levo comigo a sensação terrível de que, no final, somos sempre impotentes, mesmo fazendo o melhor que sabemos e, ainda assim sabendo que o destino último escapa em grande medida ao nosso controle.
Não é, nem de longe nem de perto, tão gratificante como pensei… É muito, muito mais!
Levo comigo os sorrisos agradecidos pelo infinitamente pouco que se fez…
…a D. M. que no final da urgencia se abraça a mim e diz”se soubesse que ia ser tão bem atendida tinha-lhe trazido uma toalha bordada, sabe que eu tenho muito jeito” :D; a M. que teve uma noite mais louca de discoteca e sai depois de umas horas de soro, com a mini-saia e uns sapatos de plástico azul gentilmente cedidos pelo serviço de urgência, vencida pelo cansaço e furiosa por lhe terem deixado os sapatos novos na discoteca… fica um sorriso feliz impossível de conter por essa fragilidade humana que nos torna todos iguais, apesar de tudo…