Wednesday, February 28, 2007

[Da gaveta]


“A tua beleza é o travo amargo e doce do teu sorriso, os cambiantes de luz e sombra no teu olhar. A tua beleza é o lugar limbo da ternura e do desejo, esse noante onde qualquer distância é insuportável, onde mora sempre a angústia premente de um gesto impossível. A tua beleza é o sol a desenhar ondas de luz no teu cabelo, na sua cor indefinida que eu sei de cor; é a surpresa emergente da tua boca, a tua ausência tantas vezes repetida, maior e mais angustiante quando partes sem levar o teu corpo contigo.


A tua beleza é esse condão mágico de revolveres a vida das pessoas, de subverteres as suas vidas, de lhe dares o seu veneno . A tua beleza é a tua figura recortada contra o vento a um passo das águas plúmbeas do douro, enquanto todos olham para todos e tu olhas para o horizonte, voando muito acima dos outros, como um anjo descalço e feliz,  esquecido cá em baixo pelos deuses.
A tua beleza é o suspiro breve desse anjo, a melancolia roubada a um acorde em fá, o grito mudo e lento de algo novo e intocável a nascer, como um vento de leste a abanar as searas com doçura.

A tua beleza é a revelação súbita do relâmpago, o baque surdo do trovão que o anuncia e se desfaz, num instante fugaz, em mel e luz; é o improviso de um acorde após outro, os dedos a dedilharem as cordas devagar, como quem não tem pressa, não tem nada para fazer nem para cumprir no instante que passa ou que passou e, como tal, tem todo o tempo que for preciso para ouvir a música e dar-lhe o timbre do seu próprio coração. A tua beleza é o sol que se desvanece devagar no teu sorriso, a sombra que turva devagar o teu olhar como as árvores a agitarem-se em sombras chinesas nas tardes de Outono.

Olho-te em silêncio - há tanto que te quero dizer e tão fraca é a minha voz; amordaçada sub-repticiamente pelo medo e pelo cansaço, cansada pelos dias que passam e sem nada mudar adormecem - adormecida pelos dias que passam e sem nada mudar cansam -, incrustando as verdades em corais mais eternos e águas mais profundas.

Olho-te em silêncio, sem te olhar; sinto o teu olhar poisar devagarinho sobre mim, como uma ave nocturna e fugidia, no intervalo preciso do tempo em que te vejo sem te olhar. A faísca do nosso olhar cruzado noutro lugar que não este tempo, como uma história roubada, sem ninguém notar, a um sítio que não existe. Como uma memória, que só existirá enquanto tu te lembrares e eu não me esquecer, um murmúrio suave do tempo, que sabe a mel e a vento e ao ar salgado da Foz nas noites frias de Dezembro.”

 

                                                                                                                                                                    [20 Ago 2004]

Posted by Ana in 23:07:53 | Permalink | Comments (2)