[Da gaveta]
“A tua beleza é o travo amargo e doce do teu sorriso, os cambiantes de luz e sombra no teu olhar. A tua beleza é o lugar limbo da ternura e do desejo, esse noante onde qualquer distância é insuportável, onde mora sempre a angústia premente de um gesto impossível. A tua beleza é o sol a desenhar ondas de luz no teu cabelo, na sua cor indefinida que eu sei de cor; é a surpresa emergente da tua boca, a tua ausência tantas vezes repetida, maior e mais angustiante quando partes sem levar o teu corpo contigo.
Olho-te em silêncio - há tanto que te quero dizer e tão fraca é a minha voz; amordaçada sub-repticiamente pelo medo e pelo cansaço, cansada pelos dias que passam e sem nada mudar adormecem - adormecida pelos dias que passam e sem nada mudar cansam -, incrustando as verdades em corais mais eternos e águas mais profundas.
Olho-te em silêncio, sem te olhar; sinto o teu olhar poisar devagarinho sobre mim, como uma ave nocturna e fugidia, no intervalo preciso do tempo em que te vejo sem te olhar. A faísca do nosso olhar cruzado noutro lugar que não este tempo, como uma história roubada, sem ninguém notar, a um sítio que não existe. Como uma memória, que só existirá enquanto tu te lembrares e eu não me esquecer, um murmúrio suave do tempo, que sabe a mel e a vento e ao ar salgado da Foz nas noites frias de Dezembro.”
[20 Ago 2004]
O teu blog tem o destaque da semana no meu
Está muito bem escrito.
Parabéns!
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