Monday, October 2, 2006

Nós e a música

[ou reflexões mais ou menos filosóficas de amigos após um concerto de Maurice Ravel]

Todos nós gostamos muito de música. Alguns de nós têm uma paixão imensa, outros estudaram, outros ainda tem apenas uma criatividade em contínua produção musical (de quantidade crescente e qualidade… hum… variável :) E temos muitas opiniões diferentes, quanto à importância de uma aptidão natural, de um ensino mais universal, do peso da criatividade e do trabalho.

Hoje foi um concerto diferente, porque encontrei pessoas que estudaram comigo, que continuaram e continuam a estudar música - e me fizeram lembrar o quanto isso foi importante. Uma espécie de nostalgia boa, da insónia da noite anterior à audição, dos dedos ficarem rígidos e frios - uma angústia pior do que qualquer outra: o medo da branca, de esquecer as notas, do silêncio do palco. Estranhamente, nesse silêncio, nesse segundo inicial, esquecia-se tudo - as notas, o ritmo, a melodia. Estranhamente, as coisas saíam como se fruto de uma vontade alheia, paralela, incontrolável e inconsciente. E isso era o mais fascinante. E eu nem sequer fui particularmente boa, mas aquele momento de palco era o momento da entrega e da fragilidade absolutas.

Por agora, ficou essa maneira boa de exorcizar a instabilidade, o excesso de coisas, a confusão dos dias. De ter silêncio, organizado em forma de notas, é certo - mas um silêncio mais íntimo do que o próprio silêncio. Ficou a vontade de voltar, mais a sério, e isso ficará sempre. Quem sabe… E para quem já voltou uma vez, não assusta regressar de novo. 

E é por isso que eu acho encantador que muitos países da Europa Central e de Leste tenham o costume de ensinar música de uma maneira tão transversal, onde as crianças aprendem a contar pela relação das semibreves e semínimas. Sem dúvida que é preciso aptidão para ser excepcionalmente bom, para compor estruturas melódicas novas - mas executar música, por si, é de uma lógica matemática que não é surpreendentemente difícil. E pode dar tanto. Executar música envolve num gesto único, memória visual e auditiva, coordenação motora e a emoção única de estar a criar algo de novo no silêncio…

Uma guitarra num serão faz sempre uma festa (mesmo que seja ao som de “Odeio o BPI”)… uma peça tocada ao final do dia de estudo faz maravilhas pela saúde mental…  A música aproxima as pessoas entre si, e tantas vezes de si mesmas. É por isso é que eu sou tão radical. Nada de desculpas de falta de aptidão. Música já para todos :)

Posted by Ana at 01:37:37 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, September 12, 2006

ao anoitecer | Al Berto

 

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

Saudades de ler poesia que eu gostava de ter escrito.
Hoje, outra vez. Ao anoitecer.
Saber que não é um delírio, a difícil arte da melancolia.

(deixar) viver… não, não sobre a pele - 
- mas nesse lugar impossível e improvável sob, dentro dela.

Como tatuagens. Que o futuro não apaga, que a memória não fenece.

 

Posted by Ana at 21:36:39 | Permalink | Comments (2)

Monday, September 4, 2006

História do Sr. C.

Em 6 anos, corremos sempre na busca do objectivo mais imediato, do trabalho seguinte, do bloco seguinte, do serviço seguinte - e, de repente, entro na casa onde ainda ontem fui mais uma caloirinha, e desta vez saio com com uma certidão de licenciatura. É estranho, e foi uma felicidade inesperada. Não orgulho, felicidade apenas. Como se estivesse sempre tão longe e, de repente estivesse lá. Na altura certa.

E estes anos (que são poucos, e no entanto são os primeiros de muitos) fizeram-me ver que orgulho não tem nada a ver com uma profissão destas. Estes anos fizeram-me ver que, acima de tudo, a nossa função só pode ser de serviço, de dádiva, mesmo quando se é um simples estudante que sabe pouco, que aparece lá todos os dias para medir os sinais vitais, auscultar, falar um bocadinho e escrever os diários. E isso, sim, é incrível - a gratidão que as pessoas podem demonstrar no fim, os laços que se criam (temporários é certo, mas não por isso menos importantes), o sentimento genuíno de agradecimento. E, muitas das vezes, fica apenas a sensação que não se fez nada que merecesse tanto apreço.

O Sr. C. foi o primeiro doente que eu segui no bloco de Medicina Interna. Pelo que me disseram, já não havia grande paciência para o senhor que, segundo soube, era bastante rezingão e estava sempre a reclamar - e eu, que estava na parte mais baixa da cadeia, fui incumbida de acompanhar a sua febre cíclica e persistente, após inúmeros exames negativos. Basicamente, ninguém sabia o que ele tinha.

Sim, ele não era muito comunicativo, e respondeu ao meu primeiro e efusivo “Bom dia!” com um monossílabo. Mas os dias passaram, e eu lembrei-me de novo da raposa d’ “O Principezinho”. Passei dia após dia a medir-lhe os sinais vitais, auscultar o que quase já sabia de cor, avaliar gráficos de temperatura tão imprevisíveis como caprichosos. E a fazer-lhe perguntas chatas sobre como passou a noite, quem foram as visitas, como correu o exame, o que estava a ler. Não era da minha conta, de facto. No entanto, na altura da alta, quando finalmente lhe diagnosticaram uma Histiocitose de Células de Langerhans numa das muitas biópsias realizadas, o Sr. C era o primeiro a cumprimentar-me com um efusivo bom dia, a perguntar-me os resultados dos exames, a contar-me como tinham sido as visitas, a reclamar das pessoas que não lhe davam atenção, a pedir que lhe fizesse o exame neurológico como fazia ao outro doente com um AVC [mesmo que, no caso dele, isso não tivesse o mínimo interesse]. Foi por tudo isso que, quando, ao fim de 60 dias de internamento, a médica dele (e minha tutora) me disse que podia ir eu dar-lhe a tão esperada notícia, eu fiquei tão contente. Porque eu não fiz nada de cientificamente muito relevante, é um facto - mas, de tantas maneiras, eu sentia aquele doente como se fosse mesmo meu. E foi tão bom lembrar-me do monossílabo do primeiro dia naquele senhor que sorria sempre que me via entrar na enfermaria e, agora, me apertava a mão tão agradecido e com uma doçura inesperada. Mesmo que, mais uma vez, tenha ficado a sensação de que o que se fez não justificava tanto agradecimento.

O dourado da profissão só se vê de início - e é tão efémero quanto vazio. Mas quando se sente este tipo de recompensa - aí sim, sabe-se o que verdadeiramente vale a pena. Nada a ver com orgulho, tudo a ver com dádiva. E dessa vez, pela primeira vez, eu senti-me um bocadinho médica. Como se, à frente dos meus próprios olhos, eu tivesse finalmente percebido.

Continua a ser estranho, e sê-lo-á por muito tempo. Não sei como sobrevivem estas ideias românticas da medicina, após anos e anos de experiência, e de camadas e camadas de uma carapaça que, acredito, muita gente não tenha por opção nem desinteresse - mas acima de tudo por defesa.

Continua a ser estranho, mas há uma parte de mim que quer acreditar que exista uma maneira deste encantamento não se corromper com o quotidiano nem com as desilusões. Até porque acima de tudo, eu sinto que perder esta convicção é uma traição profunda a alguma coisa cá dentro, à infância dos afectos, a qualquer coisa muito próxima da fé. Pode ser infantil de facto, até porque eu continuo a sentir-me muito mais perto dos meus 15 anos do que dos meus 25… mas isso é apenas o meu complexo de Peter Pan mal resolvido - e dá matéria que chegue para muitos posts.

Posted by Ana at 19:10:59 | Permalink | Comments (3)

Sunday, September 3, 2006

De volta…

De volta… depois de uma semaninha muito bem passada!

Felizmente correu tudo muito bem lá pelo congresso! A moderadora da minha mesa era muito querida e (apesar de eu estar - etariamente - um bocado desajustada), acho que a apresentação também correu bem. Felizmente, a discussão também foi uma coisa relaxada, não houve ninguém mauzinho a fazer perguntas difíceis.
E a seguir, foi tempo de passear, de conhecer melhor uma cidade ampla e linda, com uma história muito vívida e sempre presente nas suas ruas, mas nem sempre preservada como o deveria ser.
Uma cidade cheia de contrastes, onde a riqueza vivem paredes-meias com a pobreza extrema, num equilíbrio precário que, surpreendentemente, não parece tão inseguro como se poderia supor. Mas acima de tudo uma cidade com paisagens de encher o olhar, cuja gente parece, apesar e sempre, alegre. E isto, apesar de tudo, não tem grande base lógica para ser uma surpresa - como se nós, para sermos alegres, precisássemos de ser felizes. E a questão é que, apesar de eles não terem propriamente grandes motivos para serem felizes - e, entenda-se por motivos, as condições básicas de habitação, educação, cultura, segurança, que para nós quase são coisas inquestionáveis -, são alegres, têm essa luz que não precisa de ter motivo ou base racional para existir. Só porque sim.

E, de muitas formas, custa a imaginar que antes do samba, se ouviu lá o nosso fado. Porque apesar de nós ainda estarmos definitivamente presentes, na história e na arquitectura, na cultura deles como povo colonizado e (melhor ou pior) descolonizado, e na herança última da língua, nós somos tão mais sofridos, apesar de tudo. Menos samba e carnaval. Mais fado, mais saudade.

Apesar de todos os contrastes, uma cidade linda, em que o coração fica pequeno com a vista desde o Pão de Açúcar, com Copacabana debruçada sobre um Atlântico menos frio, mas sempre agreste. Onde se sente a fé de um povo que, pegando na ideia de uma religiosa princesa portuguesa, já depois do domínio português, pediu à França um Cristo Redentor que atravessou esse mesmo mar, para fazerem dele um símbolo ao mundo. Não podia ser um símbolo imperial como o Coliseu de Roma, nem um símbolo tão ascético como a Eiffel de Paris. Basicamente, não podia ser outra coisa.

Sim, é uma cidade maravilhosa - e eu quase entendo o que eles queriam dizer com cidade maravilhosa. E agora, também é bom voltar…

Posted by Ana at 21:24:02 | Permalink | Comments (3)

Saturday, August 19, 2006

A fazer as malas…

Um cantinho e um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar

Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor que lindo

Quero a vida sempre assim com você perto de mim
Até o apagar da velha chama


Tom Jobim - Corcovado


Bem, estou quase de partida… amanha de manha começa o meu voo de 12 horinhas para o Rio de Janeiro!

E, de novo, o nervoso miudinho de fazer as malas e não esquecer nada (o que no meu caso, nem sempre é fácil :)); a alegria genuína de viajar, conhecer pela primeira vez um sítio novo e distante, conhecer pessoas e ruas, escrever histórias, tirar fotografias que ficam mais guardadas na retina do que em qualquer suporte fotográfico, e que, de tantas maneiras, ajudam a dar cor à rotina do resto dos dias.

Desta vez, apesar de tudo vai ser um bocadinho diferente… o trabalho - que, embora não pareça, é o principal motivo desta viagem :) - ainda tem muitas pequenas coisinhas por arranjar; e o meu inglês vai finalmente ser testado em frente a uma plateia em condições (não, apresentações da tuna nas ruas de Praga não contam como público em condições :)) Apesar disso tudo, espero que seja giro… e que em breve esteja aqui a deixar umas fotos bonitas!

Posted by Ana at 18:03:29 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, August 15, 2006

Azul

Há algum tempo, encontrei um artigo sobre o impacto que o ambiente em que as pessoas vivem tem na sua própria maneira de ser e de estar… e eu sou sempre bastante céptica quanto à veracidade e qualidade científica destas coisas :)

Mas hoje à tardinha, a aproveitar as últimas e especialmente deliciosas horas de sol, senti o quanto me faria falta esta areia e este mar, se por algum motivo o destino me levar para mais longe.

A ouvir este mar ao fundo, passei as tardes de verão onde nasceram muitas amizades e onde tantas outras ficaram pelo final da estação, onde nasceram paixões mais ou menos sérias, onde nós crescemos quase sem dar por isso. A olhar este mar, passei manhãs frias de inverno onde o sol foi uma benção ainda maior, onde escrevi as coisas que guardo com mais carinho, onde lavei as mágoas, perdoei e esbocei pedidos de desculpa, e onde encontrei uma tranquilidade maior do que em qualquer outro sítio até hoje.

Aqui escreveram-se mensagens na areia, sorriu-se no meio da chuva, tomaram-se decisões, fizeram-se castelos (metaforicamente ou não), insistiu-se, desistiu-se e recomeçou-se.

E, ao final de um dia em que se deu tudo… voltar a este lugar é uma maneira de encontrar de novo coisas boas cá dentro, mesmo que para amanha seja para dar tudo outra vez.

Apesar das minhas dúvidas científicas sobre o artigo… de alguma maneira, eu seria uma pessoa diferente se não tivesse este pano de fundo. De tantas histórias, já não sei se sou eu que moro já neste azul, ou é ele que mora em mim…

Posted by Ana at 20:41:27 | Permalink | No Comments »

Monday, July 24, 2006

História de um olhar perdido numa noite de Dezembro


[Miragem nos olhos de um amigo, de onde nasceu a paixão da Marta e da sua história, com eventuais coincidências com a realidade e algumas meras ficções]

Sabes, Marta, já passou tanto tempo e eu continuo sem saber o que aconteceu, desde aquele dia em que descobri que para viver me bastava o alimento doce das tuas palavras e do teu silêncio. Não sei como aconteceu, nunca antes tinha vivido nesta obsessão, cada minuto a suceder-se ao próximo com a eternidade de permeio, tantas coisas para te dizer, tantos sonhos que trago comigo, e que agora já não são só meus porque tu estás sempre lá. Sabes, Marta, quando penso em ti lembro-me sempre daquela noite de inverno em que saímos com os nossos amigos da faculdade. Estavas no meio de todos nós, não estavas em nenhuma conversa em particular mas sorrias a toda a gente, e no teu sorriso, Marta, – no teu sorriso, cabia o mundo inteiro, cabia o vento gelado da foz em noites de dezembro, cabia o mar a rugir furiosamente por trás de nós, cabia o meu olhar perdido a olhar para ti como se tudo à tua volta fosse um cenário de papel.



Nesse momento olhaste para mim, por um instante brevíssimo, e eu juraria que me leste a alma como se eu fosse transparente; mas no instante seguinte tu eras de novo o teu sorriso, o dom com que abençoavas o mundo sem com ele premiar ninguém em especial. A tua beleza era tão diferente de toda a beleza. Eras tu. Fascinante porque eras uma revelação constante, e em cada gesto te tornavas mais, mais, mais.

Às vezes, à noitinha, venho passear à foz sozinho, a ver se os meus fantasmas fogem assustados pelo ventaval, ou se eu aprendo a viver com eles sem medo ou desconforto. Muitas vezes te vejo aqui, como te vi naquele dia em que pela primeira vez te olhei a sério, e pergunto-me que teria acontecido se tivesses deixado o teu olhar descansar no meu nessa noite longuínqua, por um segundo mais que fosse. Talvez não mudasse nada. Mas todos os anos que vivemos juntos nessa faculdade, enterrados em livros e fotocópias, sebentas e café, foram para mim a ausência repetida de te ter à distância imensa que a proximidade da nossa amizade nos dava, desejando-te nas entrelinhas das aulas, apaixonado pelas tuas mãos brancas e esguias, pelo teu olhar de mel, por essa beleza redimida ao fim do dia - o cabelo em desalinho, a bata debaixo do braço, o caderno de poemas com que andavas sempre a espreitar por debaixo da pasta, para matar a morte que todos os dias te desafiava e gerar um mundo onde tudo era grande como o teu sorriso. Sabes, Marta, não posso mais viver nesta angústia, escrevo cartas que deito fora ou para a gaveta, a minha casa está um caos, é o tapete branco do rasto do meu amor por ti. Um dia destes vou buscar-te ao fim do dia, ponho-te uma venda nos olhos e levo-te até àquele lugar mágico na foz, vamos ver juntos o pôr-do-sol como eu sempre quis. E aí, Marta, hás-de lembrar te daquele dia em que escreveste no teu caderno de poemas:


“A lua de dezembro sorri
No trémulo do vento
Na rotação lenta
Insuportavelmente lenta
Do céu de veludo
O teu silêncio
Tem a força de mil promessas
E o instante que não passa
Traz nas mãos o fogo efémero do entardecer
E a força irrevogável da eternidade”

Eu sei que não devia ter lido. Mas só assim pude saber que o teu olhar não foi uma miragem. Dizem que quem muito quer tudo pode. Eu queria-te com a força bruta das ondas na praia do homem do leme. Eu queria-te com a raiva descontrolada do vento a esbofetear as bandeiras.

Isso não bastou nesse dia. O mundo é, muitas vezes, mais forte do que nós. Nós somos uma pluma a fazer braço de ferro com a tormenta. Eu fui uma pluma levada pela tormenta. Para longe de ti. Eu quero-te com a força bruta das ondas na praia do homem do leme. Eu quero-te com a raiva descontrolada do vento a esbofetear as bandeiras.

Isso não bastará hoje. Por isso guardo-te no templo sagrado dos meus sonhos e enterro-te nas palavras que nascem sem consentimento das minhas mãos - para que, nessa noite, sejas sempre eterna para mim.

Posted by Ana at 14:20:12 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, March 7, 2006

Convosco


[Reflexões de um lanche na FEUP, com direito a riso até às lágrimas e memórias de histórias que não se repetem]

Dizem que, na presença de um bom amigo, estamos sempre em casa, independentemente do lugar onde realmente estivermos. Mas mais ainda, eu acho que estar com alguém que more cá dentro é, acima de tudo, estarmos mais perto de nós próprios…

Convosco, eu tenho de novo 16 anos, dou todos os meus passos com a crença imensa na bondade intrínseca das pessoas, tenho a mochila cheia de poemas e sonhos por cumprir. Depois de tantas histórias, de tantos momentos roubados ao tempo para serem guardados no lugar intocável das minhas melhores memórias, é bom saber que o tempo não apaga o que realmente importa… É com tanto orgulho que tenho a vossa amizade… e, mais do que isso, é com uma ternura infinita que vos olho e vejo os mesmos miúdos cheios de valor - com mais valor ainda - e igualmente simples, autênticos e encantadores…

Convosco, os meus 16 anos estão debaixo da minha pele, a segredar-me tanta coisa boa de um tempo em que o futuro era um tempo longuínquo que nós ambicionávamos a partir de um presente em que o sorriso de um amigo bastava. Um tempo em que queríamos muito mas não ficávamos descontentes apenas com o essencial…

Hoje, os meus 16 anos irromperam pelo meu dia sem pedir licença, a mostrar que há pessoas que se cruzam no nosso caminho como uma espécie de destino, que nos mudam, que nos encaminham, e que permanecem connosco todos os dias que passamos na sua ausência. O futuro longuínquo está mais perto, e o sorriso de um amigo que viva cá dentro continua a bastar para encher o meu dia de luz. E quando o futuro chegar, eu sei que estará lá o vosso sorriso e a vossa simplicidade, para que eu nunca me esqueça de quem eu sou…

Posted by Ana at 22:25:18 | Permalink | Comments (2)

Friday, February 17, 2006

Poema segundo | Alberto Caeiro


“O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento.

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo…


[... ]

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… [...] “

Posted by Ana at 18:24:46 | Permalink | No Comments »